Ô Ana Júlia!

Essa história da adolescente L., que ficou quase um mês presa numa cela com 20 homens em Abaetuba, no Pará, está me tirando o sono.
No período em que ficou detida, L. era estuprada para poder se alimentar. Segundo os jornais, da rua era possível ver a cela; e ela pedia socorro aos que passavam. Os moradores da cidade sabiam, viam e ouviam o que acontecia lá dentro.
Que selvageria é essa? Mais parece a descrição do inferno!
Trago lindas memórias do Pará, onde morei por alguns anos, na minha infância, quando meu pai foi transferido para trabalhar em Belém. Chegamos sem conhecer nada nem ninguém. E fomos abraçados pelo povo paraense. Anos maravilhosos aqueles… Aí tive a oportunidade de conhecer pessoas afetuosas ao extremo. Foi aí que conheci o que significa amizade verdadeira, preocupação e aceitação do outro. Generosidade. São inesquecíveis os passeios por lugares lindos, na companhia de amigos tão queridos.
Ana Júlia Carepa, atual governadora do Pará, a senhora conhece essa terra que eu conheci e acalento dentro do peito? A senhora consegue se colocar no lugar da garota que ficou presa? O delegado-geral da Polícia Civil do Estado, Raimundo Benassuly Maués Júnior, chamou a adolescente de débil mental. Depois disso ele foi afastado do cargo. E o que dizer da delegada? E o que dizer da juíza? Sim, uma mulher determinou a prisão da menina, uma outra a manteve lá.
Onde está a demência? Quem são os dementes?
Fico tentando imaginar o impacto dessa situação de Abaetuba não só na vítima, presa, estuprada, tosquiada, humilhada no mais profundo do seu ser, mas também na vida dos moradores da cidade. Presenciar um episódio de tortura, sem nada poder fazer, é ser torturado também. E se quem pode fazer algo nada faz, como ficamos?
Que país é esse onde uma governadora afirma que “infelizmente, casos de mulheres presas em celas com homens existe mesmo”. Ô Ana Júlia… que país é esse? Se existe mesmo, por que nada foi feito antes? Quais são as desculpas?
De repente, me lembrei de uma poesia, escrita por Affonso Romano de Sant’Anna, publicada em 1980, que continua assustadoramente atual: A implosão da mentira. Ela está postada logo abaixo.
Ô Ana Júlia… Se você não a conhece, por favor, dê uma atenção especial a ela, e veja como nos sentimos hoje, 27 anos depois.