fevereiro 2008

Monthly Archive

“Você se afastou de mim por causa da sua religião”

Posted by Regina Volpato on 29 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem

Valentim

Posted by Regina Volpato on 26 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem



Valentim


Quando menina, estudei piano por muitos anos. Era muito comum no interior de São Paulo meninas estudarem piano e meninos, violão. Uma época eu pensei em estudar, também, violino. Mas não deu certo.
No começo eu estudava na mesa, sob a supervisão da minha mãe, fingindo que era o instrumento, imaginado o som que deveria sair. Acho até que eu conseguia ouvir… Depois de inúmeros pedidos, finalmente, meus pais conseguiram comprar um piano em muitas, muitas prestações. Era a peça mais valiosa da casa. Foi um acontecimento quando ele chegou!
Como eu adorava tocar piano! Eu passava horas estudando. Três, quatro horas, sozinha na sala de casa, naquele calor, estudando piano. Acho que minhas mágoas, angústias, incertezas e insatisfações só não me enlouqueceram graças ao amparo que eu encontrava enquanto tocava. Achava que estava sozinha no mundo, que ninguém me ouvia. Porque eu morria de vergonha de tocar em público. Mas, como era “boa aluna” minha professora sempre me colocava para participar de concursos. Coisa chique, era transmitido pela TV Cultura e tudo. Minha mãe ficava toda orgulhosa, mas eu sofria. Era muito bom ter aulas com concertistas que vinham de São Paulo para nos preparar. Estudar para a apresentação era ótimo. Mas me apresentar era um martírio.
Estudando em casa eu me sentia livre, sem platéia, sem amarras. Eu viajava. Mal sabia eu que a vizinhança era minha platéia. Tinha um moço, o Valentim, que morava quase em frente da minha casa. Ele era estudante de medicina. Filho da dona Maria e do seu Vitório que, com muita dificuldade, conseguiram ter um filho estudando para ser médico. Só que o Valentim descobriu que tinha câncer. Nem chegou a concluir a faculdade. Ele, de cama, passava as tardes a me ouvir. E a viajar comigo. Ele pedia, através da mãe dele, para eu repetir as músicas que achava mais lindas. E eu tocava. Mas aí já ficava mais intimidada, sabendo que alguém escutava. O barato era tocar para ninguém… ou para mim mesma… sei lá.
Nessa época eu queria ser concertista quando crescesse. Prometi ao Valentim que nunca pararia de tocar piano. Mas não cumpri a promessa.
Parei de tocar quando vim para São Paulo, aos 17 anos de idade. Nunca mais toquei.
Briguei com o piano. Minha mão ao teclado parou de me obedecer, o som das notas mudou. Rompi com o piano.
Há um tempo, resolvi fazer as pazes comigo mesma e procurei uma professora de música. Não consegui fazer a primeira aula. Eu chorava, copiosamente, e me perguntava: “Como consegui ficar tanto tempo longe de um amigo tão querido? Por que fiz isso comigo mesma?”. Mas, reconquistar uma amizade leva tempo, requer dedicação. Hoje tenho um piano na minha sala, mas raramente chego nele. E´o tipo da coisa que não dá para ser feita de qualquer jeito. Tem que ser uma reaproximação lenta e delicada. Talvez eu tenha um pouco de medo dele. Quando fui ao programa da Hebe pela primeira vez, quase toquei. Mas por falta de tempo, não deu.
Estou ajeitando minha rotina para que eu possa voltar a estudar. Sinto que estou incompleta longe da música.

Lembrei de tudo isso porque a partir de hoje, na pasta SITES, temos música clássica. Devagar, serão colocados mais links para outros gêneros musicais.

O Homem de La Mancha

Posted by Regina Volpato on 22 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem



O Homem de La Mancha (1977) – Paulo Autran

Sobre O Homem de La Mancha:
aqui!

O Homem de La Mancha é um musical, baseado no livro
Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes.

“Em princípios de maio de 2002, uma impressionante comissão de críticos literários de várias partes do mundo escolheu o livro Dom Quixote de La Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), a partir de 1602, como a melhor obra de ficção de todos os tempos. Ao tempo em que narrava os feitos do Cavaleiro da Triste Figura em ritmo dos romances da cavalaria, Cervantes enervado com o sucesso daquele tipo de gênero literário junto ao grande público, realizou uma das maiores sátiras aos preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles heróis de fancaria.” Voltaire Schilling

Dom Quixote de La Mancha pode ser baixado,
gratuitamente, para o seu computador.

É só clicar nos links abaixo:

VOLUME I

VOLUME II

Aviso aos navegantes!

Posted by Regina Volpato on 19 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem

1. A pasta SITES ficou mais interessante ainda.

Sem exagero, uma sensacional relação de endereços eletrônicos sobre mulheres, crianças, adolescentes, e muitos outros assuntos, encontrados no site da Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo Comissão de Direitos Humanos e no Portal Violência Contra a Mulher – Realização Instituto Patrícia Galvão, está à disposição a partir de hoje. São vários endereços, muitas informações. Eu não saberia dizer qual me encantou mais.

2. A pasta FOTO passou a se chamar IMAGENS. E tem novidades por lá.

3. Há novidades, também, em MA-RA-VI-LHAS!

Não sei se todos descobriram, mas nesta pasta mais informações podem ser acessadas com alguns cliques a mais. Faça o teste: clique em Frida Kahlo.

Queridos, não deixem de fazer uma pesquisa nos novos endereços eletrônicos.
Na minha opinião, além de úteis, são muito didáticos e extremamente
necessários a nossa vida, a nossa formação.

Entre na roda!

Posted by Regina Volpato on 15 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem

Recebo muitas mensagens de pessoas dizendo que adorariam escrever no blog mas que não o fazem por medo de escrever errado. Primeiro de tudo quero dizer o seguinte: escrevam. Muito. Escrevam neste blog, escrevam para os amigos, colegas de trabalho, parentes, jornais, instituições, governo, políticos, para reclamar do valor da conta, tecer elogios. Comece de alguma maneira.
Escrever necessita prática. Leia e releia o que você escreveu. Sempre. Veja se você conseguiu expressar sua opinião. Você disse tudo o que pretendia? O raciocínio tem começo, meio e fim?
Hoje há muitas ferramentas que ajudam nessa atividade. Por exemplo, o aplicativo “WORD” já tem corretor ortográfico. Ou seja, você pode pedir uma ajuda ao próprio computador.
Mas nada, n-a-d-a , substitui o bom e velho companheiro dicionário. Eu, por exemplo, tenho agora, ao alcance das minhas mãos, três. Um Aurélio, enorme, caindo aos pedaços, todo amarelado, editado em 1985. Já mudei de casa ‘zil’ vezes e ele sempre me acompanha. Foi a primeira coisa que comprei quando cheguei em São Paulo. É quase uma relação de afeto… rs rs rs. O outro é um Michaelis, editado em 1998. Esse foi presente do BandNews. E, por fim, um outro Michaelis, mais novo, editado em 2002. Esse último é da minha filha, mas eu não me furto ao direito de consultá-lo também.
Fora outros que estão espalhados por aí.
Já vi quem deboche ou ache que usar dicionário é feio. Eu acho exatamente o contrário. São muitas as situações em que preciso recorrer a ele. E faço isso sem o menor pudor. Nossa língua portuguesa é linda! Mas nossa língua portuguesa também é fogo!
Escrever ajuda a pensar.
Aqui, no blog, em Sites, sugeri o endereço
http://www.verbix.com . É um site que nos ajuda a conjugar verbos em 102 idiomas, inclusive em português, claro.
Hoje é escrevendo que muitas pessoas se comunicam. Vai ficar fora dessa? Divirta-se. Aprenda. Supere-se. Entre na roda!

***

E por falar em roda,
um presente para todos nós:
Elis Regina cantando Redescobrir, do Gonzaguinha.

Tô ninja!

Posted by Regina Volpato on 11 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem

Meu amores,
vocês não imaginam onde eu estou agora, neste exato momento, às 16:44h.
Por favor, arrisquem um palpite. Tenho certeza de que não chegarão nem perto.
Pausa para reflexão.
Tudo bem, vai… já que vocês insistem, vou contar.
Estou no prédio da Bienal, no parque do Ibirapuera em São Paulo, na “Campus Party” que, de acordo com os organizadores, é o maior encontro de comunidades de internet do mundo.
Querem mais?!
Pois terão: enquanto estou escrevendo, também estou, pela primeira vez, subindo um vídeo para o Youtube.
Querem saber que vídeo é esse?
Vou dizer, mas antes, divido com vocês uma frase que eu ouvia da minha mãe: “Quando você fica sumida é porque está fazendo arte.”
Algumas pessoas acham que estou ausente, sumida do blog. Que nada! Trabalho diariamente aqui. O que tem sido uma delícia, diga-se de passagem. Aqui é meu porto seguro, é onde encontro amigos queridos, desses que procuramos para conversar, aprender, dar risada.
Não sei se notaram, mas ainda não comentei nada a respeito da inesquecível visita que recebi no SBT no dia 24 de janeiro de 2008.
Sem querer ser pretensiosa, acho que muitos gostariam de ter ido. Entendo as dificuldades, imprevistos e limitações. E, por isso, quero dizer que para mim, todos os ausentes também estiveram presentes. Tenho certeza de que vocês torceram para que tudo desse certo e, de alguma forma, sentimos as boas vibrações. Fora as cartinhas, fotos, presentes e etc, né?
Mas, voltando ao vídeo… mistério…
Há dias venho trabalhando na edição das imagens feitas no dia da visita.
Foi um jeito que achei de retribuir. Sintam-se todos homenageados.
Pensam que só vocês sabem fazer surpresa? De jeito nenhum!
Espero que gostem.

Só mais uma coisinha: não estou cabendo em mim de felicidade. Há pouquíssimo tempo achava que computador explodia!
Agora estou eu aqui, conectadíssima, arrasando no meio desse povo que sabe tudo de tecnologia, escrevendo no blog, subindo vídeo para o Youtube… como vocês dizem, AFF!
Tô ninja.
Tô ninja, mesmo!
Ninjíssima!!!!!!!!!!!!!!

Cecília Meireles: Depois do Carnaval

Posted by Regina Volpato on 08 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem



De

cec  lia meireles

Cecília Meireles

Depois do Carnaval

Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.

Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade?

Por outro lado, neste chamado país subdesenvolvido, quem poderia imaginar que há tantos reis e imperadores, princesas das Mil e Uma Noites, soberanos fantásticos, banhados em esplendores que, se não são propriamente das minas de Golconda, resultam, afinal, mais caros: pois se as gemas verdadeiras têm valor por toda a vida, estas, de preço não desprezível, se destinam a durar somente algumas horas.

Neste país tão avançado e liberal — segundo dizem — há milhares de corações imperiais, milhares de sonhos profundamente comprimidos mas que explodem, no Carnaval, com suas anquinhas e casacas, cartolas e coroas, mantos roçagantes (espanejemos o adjetivo), cetros, luvas e outros acessórios.

Aliás, em matéria de reinados, vamos do Rei do Chumbo ao da Voz, passando pelo dos Cabritos e dos Parafusos: como se pode ver no catálogo telefônico. Temos impérios vários, príncipes, imperatrizes, princesas, em etiquetas de roupa e em rótulos de bebidas. É o nosso sonho de grandeza, a nossa compensação, a valorização que damos aos nossos próprios méritos…

Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas…?

“Ved de quán poco valor
Son las cosas tras que andamos
Y corremos…”

dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval…


Texto extraído do livro “Quatro Vozes”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1998, pág. 93.

Sobre Cecília Meireles.

Página fonte.

Yes, nós temos Braguinha!

Posted by Regina Volpato on 04 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem

Uma das alegrias do carnaval brasileiro:

Braguinha01

Carlos Alberto Ferreira Braga,
o Braguinha.

Conhecido também como João de Barro, pseudônimo adotado porque seu pai não queria o nome de família ligado à música popular, Braguinha foi compositor de mais de 500 canções, muitas das quais marchinhas carnavalescas.

Mesmo sem ter estudado música e sem saber tocar nenhum instrumento, Braguinha é um dos maiores autores de marchinhas carnavalescas, como “Chiquita Bacana”, “Yes, Nós Temos Bananas”, “Linda Lourinha” e “Carinhoso” (essa última em parceria com Pixinguinha).

Também foi o maior compositor de músicas infantis brasileiro, incluindo aí as versões que fez para temas dos desenhos de Walt Disney. São deles os disquinhos coloridos que musicaram as infâncias de várias gerações.

E ele ainda foi co-autor de algumas das mais bonitas canções brasileiras: “Carinhoso” — letra que fez em 1935 para a então já famosa melodia de Pixinguinha–, “As Pastorinhas” (com Noel Rosa) e “Copacabana” (com Alberto Ribeiro). Esta última consagrou o bairro carioca pelo mundo nas vozes de diversos intérpretes. A canção rendeu ao compositor uma estátua no célebre bairro da zona sul do Rio.*

[img:Braguinha02.jpg,full,centralizado]

Ouça parte do que Braguinha compôs
aqui.

Em alguns momentos temos a impressão de que
a seleção musical acabou, mas ela continua!

***

Quer saber mais sobre a obra do Braguinha?
É só clicar aqui!

***

* Folha Online

A irmã chamada Ana e outros casos

Posted by Regina Volpato on 04 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem

VEJA
Edição 1996
21 de fevereiro de 2007

roberto toledo

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo

A irmã chamada Ana
e outros casos

As marchas de Carnaval intrigam,
surpreendem, assombram e iluminam
recônditos da alma brasileira

Um certo senhor que, apesar de crescido, diz insistentemente à mãe que quer mamar a certa altura muda abruptamente de assunto e conta que tem uma irmã, chamada Ana, que piscava muito. Piscava tanto que acabou sem a pestana. Esse caso espantoso é relatado, como se sabe, na marchinha Mamãe Eu Quero, de Jararaca e Vicente Paiva. Mais famosos são os trechos em que o homem quer mamar, quer chupeta (trata-se sem dúvida de um ás da fase oral), mas perturbador mesmo é o caso da pobre Ana. Ela era namoradeira, tanto que piscava muito. (Será que se pisca ainda, para arriscar um flerte, como em 1936, ano da marchinha?) Mas, por efeito de tanto movimentar as pálpebras – e devia movimentá-las com fúria, para provocar tal resultado –, acabou por perder os pêlos que as complementam, o que, convenhamos, compromete o encanto eventualmente presente no ato de piscar. Uma desgraça abateu-se em sua vida.
As marchinhas, suprema expressão do Carnaval entre as décadas de 1930 e 1960, intrigam, assombram, mexem com a imaginação, iluminam recônditos da alma brasileira. Sassaricando consagrou esse verbo, “sassaricar”, mas, mais importante, declarou que sassaricando “todo mundo leva a vida no arame”. No arame?! Adivinha-se que seja o mesmo que dizer “na corda bamba”, mas nem por isso a expressão causa menos estranheza. Seria comum dizer que se levava a vida “no arame” no antediluviano 1951, ano de Getúlio e Harry Truman, da primeira Bienal de São Paulo, do lançamento da Última Hora, por Samuel Wainer, e de Sassaricando, por Luís Antônio, Zé Mário e Oldemar Magalhães?
Chiquita Bacana, aquela que se vestia só com uma casca de banana, criação de Braguinha e Alberto Ribeiro (1949), era “existencialista, com toda a razão”. Quer dizer: pensava, como Kierkegaard, Heidegger e, claro, Jean-Paul Sartre, que a existência precede a essência. Logo, só fazia o que mandava o coração. Mas vislumbra-se um espírito trêfego nessa filha da Martinica. Mais consistente, e – caso raro, numa marchinha – de afirmação da mulher, é a Colombina de Pierrô Apaixonado, da respeitável dupla Noel Rosa¬Heitor dos Prazeres (1935). A Colombina, quando lhe vieram encher a paciência, disse: “Pierrô cacete, vá tomar sorvete com o Arlequim”. Quer dizer: despachou os dois.
A mulata é uma obsessão do período carnavalesco. Ela foi saudada, entre muitos outros, por Lamartine Babo e pelos irmãos Valença, em 1931, em versos com lugar de honra entre os campeões do racismo em língua portuguesa (“e como a cor não pega, mulata / mulata, quero o teu amor”), e por Braguinha e Antônio Almeida, em 1947. Estes, depois de afirmar que “branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal”, acrescentam que quando ela passa todo mundo grita: “Eu tô aí nessa marmita”. Eis-nos outra vez diante dos mistérios da expressão. Que significaria “estar numa marmita”? Segundo o Dicionário Houaiss, em sentido informal, marmita pode ser “barriga, ventre” e também “meretriz que sustenta o rufião”. Não, barriga não cabe, e meretriz não seria, muito menos quando arrimo de rufião, a mulata para a qual o narrador “bate palmas e pede bis”. Uma possibilidade é supor que a mulata em questão carregasse uma marmita, em sentido próprio. O autor, carinhoso, gostaria de estar dentro dela só para privar de sua intimidade. Mas é apenas suposição. Sessenta anos é muito. Produz ruídos impenetráveis na linguagem. Não é simples, para um ouvido de 2007, captar uma voz de 1947.
A mulata é a mulata. Estranho seria se não figurasse no Carnaval. Intrigante de verdade é a presença nas marchinhas do mundo árabe e da religião muçulmana. Em Alah-lá-ô (Haroldo Lobo e Nássara, 1940), pessoas que, exauridas, atravessam o Deserto do Saara (bom nome para rimar com “cara”) pedem água a “Alá, meu bom Alá”. Em Cabeleira do Zezé (1963), um clássico da homofobia, começa-se por duvidar da masculinidade do Zezé, um moço de cabelo comprido, mas, a certa altura, faz-se um giro desconcertante e pergunta-se: “Será que ele é Maomé?”. Por que Maomé, logo Maomé, se esconderia por trás do cabeludo? Ainda não existiam os xiitas, nem os aiatolás, nem a Al Qaeda, para sorte de quem compôs (João Roberto Kelly e Roberto Faissal) e de quem cantou a música.
De resto, bebia-se, ah, como se bebia, nas marchinhas. Nelas, como a mulata, a cachaça é a tal. Em Saca-Rolha (Zé da Zilda, Zilda do Zé, Waldir Machado), o personagem-narrador afirma que garrafa cheia não quer ver sobrar. Em Cachaça (Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro e Héber Lobato), configura-se um caso gravíssimo. O narrador declara que pode lhe faltar tudo na vida: “arroz, feijão e pão”. Pode lhe faltar até o amor, e disso “até acha graça”, mas não pode lhe faltar “a danada da cachaça”. Tanto Saca-Rolha quanto Cachaça são de 1953. É o ano da criação da Petrobras, do filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, premiado em Cannes, do livro Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, e do apogeu dos borrachos.

Página fonte

“Minha família não aceita meu estilo”

Posted by Regina Volpato on 01 fev 2008 | Tagged as: Corrente do Bem

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