Valentim


Quando menina, estudei piano por muitos anos. Era muito comum no interior de São Paulo meninas estudarem piano e meninos, violão. Uma época eu pensei em estudar, também, violino. Mas não deu certo.
No começo eu estudava na mesa, sob a supervisão da minha mãe, fingindo que era o instrumento, imaginado o som que deveria sair. Acho até que eu conseguia ouvir… Depois de inúmeros pedidos, finalmente, meus pais conseguiram comprar um piano em muitas, muitas prestações. Era a peça mais valiosa da casa. Foi um acontecimento quando ele chegou!
Como eu adorava tocar piano! Eu passava horas estudando. Três, quatro horas, sozinha na sala de casa, naquele calor, estudando piano. Acho que minhas mágoas, angústias, incertezas e insatisfações só não me enlouqueceram graças ao amparo que eu encontrava enquanto tocava. Achava que estava sozinha no mundo, que ninguém me ouvia. Porque eu morria de vergonha de tocar em público. Mas, como era “boa aluna” minha professora sempre me colocava para participar de concursos. Coisa chique, era transmitido pela TV Cultura e tudo. Minha mãe ficava toda orgulhosa, mas eu sofria. Era muito bom ter aulas com concertistas que vinham de São Paulo para nos preparar. Estudar para a apresentação era ótimo. Mas me apresentar era um martírio.
Estudando em casa eu me sentia livre, sem platéia, sem amarras. Eu viajava. Mal sabia eu que a vizinhança era minha platéia. Tinha um moço, o Valentim, que morava quase em frente da minha casa. Ele era estudante de medicina. Filho da dona Maria e do seu Vitório que, com muita dificuldade, conseguiram ter um filho estudando para ser médico. Só que o Valentim descobriu que tinha câncer. Nem chegou a concluir a faculdade. Ele, de cama, passava as tardes a me ouvir. E a viajar comigo. Ele pedia, através da mãe dele, para eu repetir as músicas que achava mais lindas. E eu tocava. Mas aí já ficava mais intimidada, sabendo que alguém escutava. O barato era tocar para ninguém… ou para mim mesma… sei lá.
Nessa época eu queria ser concertista quando crescesse. Prometi ao Valentim que nunca pararia de tocar piano. Mas não cumpri a promessa.
Parei de tocar quando vim para São Paulo, aos 17 anos de idade. Nunca mais toquei.
Briguei com o piano. Minha mão ao teclado parou de me obedecer, o som das notas mudou. Rompi com o piano.
Há um tempo, resolvi fazer as pazes comigo mesma e procurei uma professora de música. Não consegui fazer a primeira aula. Eu chorava, copiosamente, e me perguntava: “Como consegui ficar tanto tempo longe de um amigo tão querido? Por que fiz isso comigo mesma?”. Mas, reconquistar uma amizade leva tempo, requer dedicação. Hoje tenho um piano na minha sala, mas raramente chego nele. E´o tipo da coisa que não dá para ser feita de qualquer jeito. Tem que ser uma reaproximação lenta e delicada. Talvez eu tenha um pouco de medo dele. Quando fui ao programa da Hebe pela primeira vez, quase toquei. Mas por falta de tempo, não deu.
Estou ajeitando minha rotina para que eu possa voltar a estudar. Sinto que estou incompleta longe da música.

Lembrei de tudo isso porque a partir de hoje, na pasta SITES, temos música clássica. Devagar, serão colocados mais links para outros gêneros musicais.