Na sexta-feira, 28 de março, gravei o milésimo programa Casos de Família, que irá ao ar amanhã, dia 03 de abril de 2008.
Mil programas!
Mil temas diferentes.
Mil encerramentos.
Não sei quantos mil convidados. Mais de cinco mil, com toda certeza.
Milhões de emoções.

Eu estava muito ansiosa antes da gravação. Acho que todos nós estávamos.
A produção caprichou. Fez muitas surpresas, colheu depoimentos dos meus colegas, da minha família. Relembramos pessoas que marcaram nossa história.
Logo no início levei um choque. Foi quando entrei no estúdio e vi a platéia, que me inundou, com seus olhares carinhosos. Ex-colegas do programa estavam lá, assim como muitos daqueles que sempre estão ali comigo, me dando força, me incentivando com a presença. Anônimos para muita gente mas, para mim, grandes e carinhosos amigos. Minha relação com a platéia sempre foi muito especial. Quando comecei a fazer o programa, o que mais me metia medo era ter de enfrentar a platéia. Eu os ouvia chegando, as vozes, risadas, murmurinhos e ficava trêmula. Mas foi justamente a platéia quem primeiro me acolheu. A primeira vez que alguém elogiou meu trabalho foi uma senhora da platéia, durante a gravação de um programa. Lembro direitinho da roupa que eu usava: uma camisa rosa, com umas aplicações de flores do mesmo tecido. Naquela época ainda usava o cabelo avermelhado. (Sei lá porque, mas todas as vezes que mudei de emprego na TV a primeira coisa que me pediram foi para que mudasse a cor ou o corte do cabelo. Eu sempre mudei. Isso nunca foi problema pra mim. Com o tempo, vou voltando a usar como eu gosto. No SBT me pediram para ser meio ruiva. Acaju.) Bom, mas já quase no final do programa, uma senhora de cabelos bem branquinhos posicionou-se para fazer pergunta. De repente ela disse: “ Eu não quero fazer pergunta; quero dizer que nós te adoramos, Regina.” Eu não esperava. De jeito nenhum. Nos abraçamos de uma maneira tão gostosa! Mal sabia aquela senhora em que boa hora havia surgido… Ela já voltou algumas vezes. E é sempre uma alegria revê-la. Tenho boa memória, mas o nome dela não há meio de eu guardar. Não me sai da cabeça seu sorriso, sua voz, seu cabelinho ralinho… da última vez ela estava com eles na cor castanho. Mas ainda prefiro quando estão branquinhos.
Algumas pessoas vão sempre ao programa. E falam um pouco de si. Não sei se sabem, mas guardo o que dizem, e sei um pouco da vida delas. Por exemplo, tem uma senhora que já foi amante. Outra que é muito amiga das noras. Há um senhor que só faz o jantar depois que o programa acaba. Por isso ele prefere quando o programa vai ao ar mais cedo. Senão a família só janta depois das sete. Tem uma linda, com uma risada deliciosa. Há as amigas, que sempre sentam juntas. Outras até já participaram como convidadas.
Voltando a gravação do programa mil…
Passado o choque inicial, retomei o fôlego, o profissionalismo e começamos a gravar.
Estava torcendo pelos meus colegas que seriam entrevistados. Mas sabia que tudo correria bem. E assim foi.
Mas ouvir os depoimentos a meu respeito me desequilibrou. Pessoas que eu tanto admiro falaram coisas tão lindas a meu respeito. Foi de dar nó na garganta. Fiquei muito encabulada. Assustadíssima. E, nessa hora, mais uma vez, tive aquela sensação de sair de mim. Não era mais eu quem estava ali. Parecia que estava assistindo outra pessoa passar por tudo aquilo. Meus colegas da emissora foram de uma gentileza ímpar. Cada vez que eu os ouvia dizer meu nome, um calafrio. Uma vontade de estar sozinha, num cantinho, quietinha para poder curtir à vontade.
Aí… veio o golpe final: minha família dando os parabéns pelos mil programas. Pra começo de conversa, eles me chamam de Regina Paula. E ouvi-los falando meu nome assim me remeteu a tantas coisas… mas tantas coisas… Meu pai dizendo: “Regina Paula, você é uma menina de ouro!”, causou um impacto na minha alma difícil de explicar. Finalmente o Fernando, que repetiu as maravilhas que ele não perde a oportunidade de me dizer. E que adoro ouvir, todas as vezes. Cada vez mais.
Fiquei dura. Segurei toda a vontade de explodir. Não me deixei inundar. Encerrei o programa.
Assim como acontece desde o primeiro, não tenho a menor idéia se fui bem, ou não. Se encerrei de maneira satisfatória, ou não. Durante muito tempo, após os encerramentos, eu perguntava para a primeira pessoa que encontrava a caminho do camarim: “Fui bem? Deu para entender o que falei? Fez sentido tudo o que eu disse?”. Mil programas depois, e continuo do mesmo jeito. Achando que deveria ter feito diferente. Ter chorado, entregado os pontos, deixado a emoção me invadir. Fico me culpando por achar que não consegui satisfazer a expectativa das pessoas envolvidas.
Saí do estúdio. Segui para o camarim. Pedi um café para a Betânia, amiga e amada camareira. Fiquei só.
De repente, senti que a menininha de Rio Preto, complexada, insegura, mas cheia de sonhos, com medo de ser inadequada, feinha, chatinha foi se aproximando devagar da mulher, que hoje é apresentadora de TV. A menininha saiu da espreita. E encontrou a mulher de braços abertos, que a apertou contra o peito e a cobriu de beijos.
Algumas poucas, doces, lentas e suaves lágrimas finalmente escorreram pelo meu rosto. Nesse momento consegui celebrar.
Mil programas.
Quem diria, minha menininha querida… Quem diria, Regina Paula…