maio 2008
Monthly Archive
Monthly Archive
Posted by Regina Volpato on 29 mai 2008 | Tagged as: Corrente do Bem

O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.
Minhas palavras são como as estrelas que nunca empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do homem vermelho.
O homem branco esquece a sua terra natal, quando – depois de morto – vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem – todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.
Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo. O rumorejar d’água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias a um irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata sua mãe – a terra – e seu irmão – o céu – como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.
Não sei. Nossos modos diferem dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de nada entende.
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das assa de um inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro.
O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum – os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores campestres.
Assim pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que (nós – os índios) matamos apenas para o sustento de nossa vida.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.
Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra – fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.
Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias – eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará, para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver, de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu criador. Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer uma noite, sufocado em teus próprios desejos.
Porém, ao perecerem, vocês brilharão com fulgor, abrasados, pela força de Deus que os trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia? Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver o nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Preteje-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse: E com toda a tua força o teu poder e todo o teu coração – conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.
Posted by Regina Volpato on 23 mai 2008 | Tagged as: Corrente do Bem
Sempre que possível, me dou uma tarde de presente. Leio bastante, arrumo gavetas e passo longos momentos ouvindo os sons da tarde. Calada, absorta, fico olhando o céu. Breve retenção da respiração do dia. Compasso de espera, entre as expectativas próprias do começo, das manhãs, e o que poderá acontecer quando a noite chegar. Nesses momentos, volto no tempo. Os mesmos sons de quando freqüentava a escola no período vespertino, no curso primário. Depois, quando passei para a turma da manhã, eram esses sons que me acompanhavam quando ia , a pé, às aulas de piano, de educação física ou, então, quando fazia as tarefas escolares, sobre a mesa da cozinha. Quando menina, certa vez, ouvi uma moça dizer: “Não sei o que quero, mas sei que vou conseguir.” Achei tão engraçado. Talvez hoje eu dissesse: “Sei o que quero, mas não sei se vou conseguir.”
A dúvida, no entanto, não me consome. Não me entristece. O sabor, a beleza, está em percorrer o caminho. Sem pressa. Sem ansiedade. Sem expectativa de onde e quando chegar. Ouvir os sons das tardes me aproxima destas sensações que, uma dia, imaginei ter perdido.
A tecnologia mudou muito os nossos hábitos. Mudou as nossas necessidades, a nossa visão de mundo. Quando eu era pequena, pensar no tamanho da Terra ou, como dizíamos, nesse “mundão de meu Deus”, era tentar imaginar algo descomunal, infinitamente grande, que parecia até não caber dentro dos nossos pensamentos. Hoje a Terra cabe na tela de um computador. E só. Acabou. Não tem mais nada.
E o Japão? Esse era o lugar mais longínquo citado nas nossas brincadeiras. Agora, é logo ali. Às vezes, a gente fantasiava, tentando adivinhar o que as pessoas no Japão estariam fazendo naquele exato minuto. O computador me deu a chance de constatar que pessoas do Japão e daqui, do Brasil, muitas vezes, fazem a mesma coisa, ao mesmo tempo. É uma bandeirinha verde e amarela aqui, outra bandeirinha branca com um círculo vermelho no centro, lá. É tudo muito estranho… É tudo muito mágico…
Se sou uma pessoa contemplativa? Sou. Sempre que posso, sou, sim. E gostaria de ser bem mais. Adoro também olhar o céu estrelado. Mas sei que tem gente que nunca olha para o céu, acreditando ser perda de tempo. Perda de tempo? Será? Acredito que não seja perda de tempo. Ver a beleza de uma estrela cadente, ver a beleza da Lua, a beleza da dança das nuvens… Quão pequenos somos nós …
Contemplar o céu me aproxima de mim mesma, me aproxima do que tenho de melhor dentro de mim.
Nesses últimos tempos, tenho me encantado com o link que nos direciona para o site da NASA, que foi colocado aqui no blog. Logo ali, do lado direito. Imagens que me enchem de espanto, e dúvidas também. Esse “mundão de meu Deus” se mostra agora muito maior do que sequer conseguimos imaginar. Como somos minúsculos diante de tanta grandeza… Com esse mistério todo, com essa maravilha toda e o ser humano pensando em guerrear, devastar, roubar, corromper, ludibriar, assassinar, torturar… Como pode? Como podem?
Essas reflexões me fizeram lembrar de um filme que gosto muito e quero, agora, compartilhar com vocês. Nós Estamos Aqui: O Pálido Ponto Azul, narrado pelo astrônomo Carl Sagan. Para mim um filme emocionante. Um filme que nos dá a dimensão exata do nada que somos nós. Um filme que todos deveriam assistir e meditar sobre ele.
Na pasta MA-RA-VI-LHAS! vocês encontrarão mais um pouco da vasta e belíssima obra de Carl Sagan.

Posted by Regina Volpato on 19 mai 2008 | Tagged as: Corrente do Bem
Posted by Regina Volpato on 17 mai 2008 | Tagged as: Corrente do Bem
Aprendemos a nos relacionar socialmente a partir de uma série de regras e convenções que, na maioria das vezes, represa a natural expressão de nossos afetos. Mas aprendi com o passar dos anos que é impossível amar alguém ou mesmo amar a vida, sem antes nos amarmos.
Mas o que significa “amar a si mesmo”? Se você puder, pare para se observar durante um dia, apenas um dia, e perceba quantas vezes você se condena.
Acredito que durante aproximadamente dois mil anos, durante toda era cristã, temos construído uma forma destrutiva de se relacionar, começando pela relação que temos com nossos sentimentos, corpo e pensamentos. Criamos alguns vícios que hoje se tornaram prejudiciais para o nosso crescimento e evolução.
Hoje, neste momento planetário em que vivemos, eles não devem fazer mais sentido. Perceba quantas vezes você se condena durante um só dia. Você não acha que já foi condenada demais para continuar nessa toada?
Durante toda uma era de existência, temos aprendido a colocar o poder que nos pertence nas mãos dos outros: de nossos pais, do estado, da igreja, de nossos patrões, nossos amigos e muitas vezes até de pessoas que mal conhecemos. Mas o que significa dar poder ao outro? Muitas vezes acreditamos no que as pessoas dizem sobre nós, sem ao menos questionarmos suas idéias ou opiniões, sem dar a devida importância para o que verdadeiramente pensamos ou sentimos.
Temos todos vividos sob a espada da autocondenação. Mas se você passa seu dia condenando-se, como pode amar-se? Como poderá amar a vida se condena sua própria vida? E pior do que tudo, como poderá amar alguém, se não ama a si mesmo?
Osho nos diz que nunca poderemos nos tornar parte do todo sem ao menos ter respeito pelo Deus que vive dentro de nós. Como poderemos nos amar verdadeiramente se nem ao menos temos consciência de que somos um veículo de Deus? Você já parou para pensar nisso?
Muitas linhas esotéricas costumam falar sobre o Deus dentro de nós, o sagrado que existe em nossos corações, mas na verdade para muitas pessoas tudo isso não passa de palavras. A maioria não consegue nem ao menos contatar essa energia de amor que deveria fluir naturalmente no coração de todos nós.
Mas como isso é possível se passo meu dia me destruindo, me condenado? Como posso me amar se ainda hoje me considero um pecador?
Pare e reflita: o que significa amar a mim mesmo? Como seria isso em minha vida? O que eu posso fazer para mudar totalmente minha concepção a respeito de mim mesmo?
Não tenha medo de amar a si mesmo. Ame-se totalmente. Liberte-se da autocondenação e da falta de respeito que sente por você. Pare de se punir por coisas que os outros disseram sobre você. Reaproprie-se de seu poder. Trabalhe e construa-se apenas em cima da ética, do respeito, do amor, primeiro a si mesmo, depois aos outros e à vida.
Somos seres de luz e de glória, vivemos banhados em nossa própria luz. Nós somos o maior milagre do Deus que existe dentro e fora de nós. Muitas pessoas me procuram querendo aprender a meditar, mas medita apenas aquele que ama a si mesmo, aquele que pode entrar em contato consigo mesmo sem julgamentos, sem condenações.
Quando aprendermos verdadeiramente o amor a nós mesmos, poderemos amar tudo e todos e isso pode transformar toda vida neste planeta. No entanto, enquanto você não trouxer todo lixo ancestral à consciência, não poderá limpar-se da autocondenação imposta pela perda de seu poder. Mas para isso é preciso enfrentar-se, ou seja, olhar-se de frente. Sem esse enfrentamento não poderemos nos amar.
Tudo isso o Buda e Jesus Cristo nos disseram há milhares de anos e somente quando pudermos entender suas palavras, poderemos nos olhar de frente e definitivamente “amar os outros como a nós mesmos”.
Posted by Regina Volpato on 14 mai 2008 | Tagged as: Corrente do Bem
Posted by Regina Volpato on 10 mai 2008 | Tagged as: Corrente do Bem
Não imaginava que o post Valentim fosse mobilizar tanto as pessoas.
Escrevi muito emocionada, é verdade, enquanto me recuperava de uma virose que me obrigou a dar uma pausa nas atividades do cotidiano. Foi um período providencial. Passei dias de cama, e tive tempo de pensar, pensar muito.
Acredito piamente que meu corpo se comunica comigo. Não foi à toa que caí de cama… Eu precisava de uma pausa. Nós sempre precisamos de uma pausa e, raramente, nos apercebemos disso.
Alguns comentários aqui, do blog, ficaram na minha cabeça e, com reverência, me dediquei a refletir sobre a nossa fragilidade, física e emocional, sobre a fragilidade do planeta. A refletir sobre a impermanência, sobre a transitoriedade de tudo: pessoas, situações… É muito difícil nos darmos conta e aceitarmos que, num piscar de olhos, tudo pode ser alterado. As tarefas que foram programadas para daqui a algumas horas podem nunca ser realizadas… O que nos dá a certeza absoluta de que um compromisso marcado para amanhã será mesmo cumprido, que estaremos aqui para honrá-lo? Acho que a nossa postura revela, de maneira inconsciente, a nossa crença de que somos eternos, de que temos a vida toda pela frente. Sempre que ouço: “Se um dia eu morrer…”, intervenho, e digo: “Você vai morrer; assim como eu.” Nessas ocasiões, sou olhada como se estivesse xingando. Insultando. Acho curioso como a grande maioria das pessoas escolhe viver tentando esquecer que a morte é, sim, real, e sempre nos espreita.
Mas se a única certeza da vida é a morte, qual o papel que ela desempenha na nossa existência? Como norteia nossas decisões?
Vejo duas maneiras diferentes de lidar com a questão.
Um grupo acredita que, já que tudo cairá no esquecimento em duas ou três gerações, que a existência, então, se encerre no presente imediato, que se viva tudo, o mais rápido e intensamente possível. Para isso, as pessoas não têm o menor pudor em passar por cima de quem estiver no caminho. Acreditam que não faz sentido se comprometer com qualquer coisa, que seja. Essas pessoas fazem questão absoluta em só enxergar aquilo que faz parte de suas necessidades imediatas, nada além disso. Sendo assim, não lhes faz a menor diferença se o planeta pede socorro, se as condições de sobrevivência humana na Terra vão desaparecer. “Até esse dia já morri, mesmo”, dizem num egoísmo extremo, numa ausência completa de percepção para o sagrado. E vivem dentro de um desleixo absoluto. Desleixo pelo próprio corpo, inclusive. Se fazem isso com eles mesmos, que dirá com o outro? Com o planeta?
Outro grupo, que possivelmente não seja a maioria, sabe que a noção do fim está presente a cada instante. E sabe que é apenas uma pequena, uma ínfima parte de um todo, grandioso, indefinível. E tem gratidão por cada segundo vivido. Para esses, pequenos episódios passam a ter importância porque são os detalhes, aparentemente sem importância, que marcam e, algumas vezes, mudam nossas vidas. Pequenos encontros. Singelas contribuições. Mínimos gestos. Poucas palavras. Gentilezas do dia-a-dia. Respeito pelos limites do corpo. Respeito pelos limites do outro. Respeito pelas vivências. Pelas dores alheias. Pelos traumas. Respeito por toda fragilidade na qual estamos inapelavelmente imersos.
Voltando ao Valentim, hoje vejo como um episódio que, à época, por causa da minha imaturidade, não teve muita importância, marcou tanto a minha vida. Quantos fatos corriqueiros, e de extrema significância, desperdiçamos na correria do dia-a-dia? Em que lugar pretendemos chegar? Existe mesmo esse lugar? Por que no alvorecer desse milênio as pessoas fazem questão de se mostrar tão insensíveis, e se comportam sem a menor cerimônia umas com as outras, trazendo com tal atitude uma ausência completa de respeito e afeição? Ser educado, respeitoso, cauteloso, prudente, virou sinônimo de caretice. As pessoas chegam umas nas outras com tudo, com uma intimidade forçada, inexistente. Faz parte de toda e qualquer relação, sempre, uma certa dose de cerimônia. Caso contrário, vira invasão. Intimidade requer tempo. Intimidade é construída. E, por maior que seja a intimidade, nada dispensa o respeito.
O entorno muda. A amizade deles, não.
Amigos, simplesmente amigos.
Posted by Regina Volpato on 07 mai 2008 | Tagged as: Corrente do Bem