Amigos, simplesmente amigos

Não imaginava que o post Valentim fosse mobilizar tanto as pessoas.
Escrevi muito emocionada, é verdade, enquanto me recuperava de uma virose que me obrigou a dar uma pausa nas atividades do cotidiano. Foi um período providencial. Passei dias de cama, e tive tempo de pensar, pensar muito.
Acredito piamente que meu corpo se comunica comigo. Não foi à toa que caí de cama… Eu precisava de uma pausa. Nós sempre precisamos de uma pausa e, raramente, nos apercebemos disso.
Alguns comentários aqui, do blog, ficaram na minha cabeça e, com reverência, me dediquei a refletir sobre a nossa fragilidade, física e emocional, sobre a fragilidade do planeta. A refletir sobre a impermanência, sobre a transitoriedade de tudo: pessoas, situações… É muito difícil nos darmos conta e aceitarmos que, num piscar de olhos, tudo pode ser alterado. As tarefas que foram programadas para daqui a algumas horas podem nunca ser realizadas… O que nos dá a certeza absoluta de que um compromisso marcado para amanhã será mesmo cumprido, que estaremos aqui para honrá-lo? Acho que a nossa postura revela, de maneira inconsciente, a nossa crença de que somos eternos, de que temos a vida toda pela frente. Sempre que ouço: “Se um dia eu morrer…”, intervenho, e digo: “Você vai morrer; assim como eu.” Nessas ocasiões, sou olhada como se estivesse xingando. Insultando. Acho curioso como a grande maioria das pessoas escolhe viver tentando esquecer que a morte é, sim, real, e sempre nos espreita.
Mas se a única certeza da vida é a morte, qual o papel que ela desempenha na nossa existência? Como norteia nossas decisões?
Vejo duas maneiras diferentes de lidar com a questão.
Um grupo acredita que, já que tudo cairá no esquecimento em duas ou três gerações, que a existência, então, se encerre no presente imediato, que se viva tudo, o mais rápido e intensamente possível. Para isso, as pessoas não têm o menor pudor em passar por cima de quem estiver no caminho. Acreditam que não faz sentido se comprometer com qualquer coisa, que seja. Essas pessoas fazem questão absoluta em só enxergar aquilo que faz parte de suas necessidades imediatas, nada além disso. Sendo assim, não lhes faz a menor diferença se o planeta pede socorro, se as condições de sobrevivência humana na Terra vão desaparecer. “Até esse dia já morri, mesmo”, dizem num egoísmo extremo, numa ausência completa de percepção para o sagrado. E vivem dentro de um desleixo absoluto. Desleixo pelo próprio corpo, inclusive. Se fazem isso com eles mesmos, que dirá com o outro? Com o planeta?
Outro grupo, que possivelmente não seja a maioria, sabe que a noção do fim está presente a cada instante. E sabe que é apenas uma pequena, uma ínfima parte de um todo, grandioso, indefinível. E tem gratidão por cada segundo vivido. Para esses, pequenos episódios passam a ter importância porque são os detalhes, aparentemente sem importância, que marcam e, algumas vezes, mudam nossas vidas. Pequenos encontros. Singelas contribuições. Mínimos gestos. Poucas palavras. Gentilezas do dia-a-dia. Respeito pelos limites do corpo. Respeito pelos limites do outro. Respeito pelas vivências. Pelas dores alheias. Pelos traumas. Respeito por toda fragilidade na qual estamos inapelavelmente imersos.

Voltando ao Valentim, hoje vejo como um episódio que, à época, por causa da minha imaturidade, não teve muita importância, marcou tanto a minha vida. Quantos fatos corriqueiros, e de extrema significância, desperdiçamos na correria do dia-a-dia? Em que lugar pretendemos chegar? Existe mesmo esse lugar? Por que no alvorecer desse milênio as pessoas fazem questão de se mostrar tão insensíveis, e se comportam sem a menor cerimônia umas com as outras, trazendo com tal atitude uma ausência completa de respeito e afeição? Ser educado, respeitoso, cauteloso, prudente, virou sinônimo de caretice. As pessoas chegam umas nas outras com tudo, com uma intimidade forçada, inexistente. Faz parte de toda e qualquer relação, sempre, uma certa dose de cerimônia. Caso contrário, vira invasão. Intimidade requer tempo. Intimidade é construída. E, por maior que seja a intimidade, nada dispensa o respeito.

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Meus queridos, abaixo, um lindo video com dois amigos.

O entorno muda. A amizade deles, não.
Amigos, simplesmente amigos.



Prêmio Especial do Júri Anima Mundi 2002.
Indicação ao Oscar de “Melhor Curta-Metragem em Animação” – 2003