Regina Volpato blog1Hoje levantei com um firme propósito: escrever sobre o aniversário de um ano do blog.

Liguei o computador, escrevi algumas palavras, parei e percebi que algo estava me travando. Não entendia direito o que era. Só após algum tempo, percebi o óbvio. Tinha sido tomada por uma profunda emoção. Não sei muito bem comemorar vitórias, mas estou aprendendo.

Nessas horas, poder se expressar através da arte ajuda imensamente. Ainda bem que existe o piano na minha vida. Com ele, vou para outra dimensão. É como respirar muito ar puro. Hoje, minhas mãos dedilhavam sobre o teclado, mas o meu pensamento continuava aqui, nessa experiência fantástica que graças a vocês estou tendo a oportunidade de viver. Os encontros e desencontros que aconteceram; a imensa surpresa que foi a grande acolhida desta iniciativa; as discussões entre mim e a Adelidia que precedem a cada publicação.

Deixei o piano com seus acordes pungentes e voltei ao computador. Travada ainda, resolvi “lamber a cria”: reler posts antigos, comentários… Aos poucos, fui me descontraindo, senti que as palavras começavam a fluir, e a alegria foi tomando posse de mim. Alegria e orgulho de estar comemorando um ano de blog. Não foi fácil, vocês sabem. Foi preciso muita raça para começar e continuar. Noites sem dormir, apreensiva, apavorada. Mas algo dentro de mim dizia que eu precisava seguir em frente. E segui.

Já contei aqui que, quando surgiu a idéia de me comunicar com vocês através da internet, estava profundamente insatisfeita, beirando a uma depressão. Repito isso, agora, porque acho importante lembrar que são nestes momentos, em que estamos introspectivos, mergulhados em nós mesmos, que existe a possibilidade de nos conhecermos um pouco mais. De conversarmos conosco perguntando com coragem, o que há de estranho, que incomoda e, portanto, precisa ser alterado. São nestes movimentos para dentro de nós mesmos que podemos descobrir maneiras criativas de estarmos no mundo. Do meu ponto de vista, é evidente que quem não faz estes mergulhos fica sempre na superfície. Não se conhece. Não se supera. Não se reformula. Não se reinventa. Não vive a vida em sua plenitude.

Existe uma tentativa para nos convencer a viver sempre de bom humor, de alto astral, do mesmo jeito todos os dias. Talvez os robôs sejam assim. Sei não… Pensando bem, nem internet é sempre igual. Tem dias que está mais lenta. Noutros, mais ágil. Tem site que cisma em não abrir e depois, de repente, abre… Conheço pessoas que são sempre do mesmo jeito. Como? Tomam remédio para acordar. Remédio para dormir. Pílula para ficar alegre. Cápsula para emagrecer. Quero ver se um dia, por equívoco, for ingerida a cápsula errada. Já pensaram?

E que desperdício teria sido não me lançar neste desafio.

Passaria pela vida sem saber que meu trabalho é respeitado. Sem conhecer pessoas maravilhosas que hoje fazem parte do meu dia-a-dia. Não teria dado boas risadas com os comentários. Enxergado outras opiniões. Dá um frio na barriga só em pensar o que eu teria desperdiçado.

No começo, a intenção era apenas compartilhar um pouco de conhecimento. Para que entendam melhor, quero dividir com vocês um momento da minha vida. Aconteceu quando entrei na USP. Naquela época, me senti profundamente incomodada com a minha falta de conhecimento. Meus colegas citavam autores que eu nunca tinha ouvido falar. Discutiam idéias que eu desconhecia completamente. Comentavam preferências por músicas e artes em geral que eu nem conseguia entender os títulos. Ressabiada, me perguntava de que planeta eles tinham vindo, por onde tinham passado. E eu? Onde eu tinha estado aquele tempo todo? Nunca ninguém falara nada daquilo comigo. Paguei muitos micos. Fiz papel de boba. Consegui disfarçar algumas vezes, passei vergonha outras tantas. Não sabia sequer onde buscar todo aquele conhecimento. Foi uma época terrível para mim e, a duras penas, pude constatar o quanto a falta de conhecimento empobrece as relações.

Sem a pretensão de saber demais, mas com a intenção de dividir o meu repertório, e a vontade de conhecer outros, nasceu este blog. Um espaço que talvez pudesse ser lembrado durante uma pesquisa, ou na busca por alguma referência.

Já me perguntei se algo seria mudado a partir dos temas aqui abordados, se eles ajudariam a alguém. O que eu me respondi? Pode ser que não. Pode ser que sim. Não sei…

Clarice Lispector, em 1977, na entrevista postada aqui em 14 de março deste ano , afirmou que nada seria mudado graças ao trabalho dela. Ela disse escrever para continuar viva.

Sem vergonha de plagiá-la, digo o mesmo.

Este espaço é o reflexo de uma maneira de ser. Apenas o reflexo de uma maneira de ser.

Necessito fazer minha parte. Insisto em instigar a reflexão. Não me canso de pensar, de procurar respostas, sem a menor certeza de que elas existam, ou não. Não consigo deixar de acreditar que todo ser humano tem, sim, sua porção digna. Porém, procuro cultivar a humildade de saber que esta minha maneira é apenas mais uma, pois existem incontáveis maneiras de pensar, viver e compartilhar o espaço aqui na Terra. Um Planeta, diga-se de passagem, que pertence a todos nós, embora muitos se esqueçam disso.

O que eu constato é que mais uma vez a vida me presenteia.

Acho que sou meio econômica nos meus desejos, viu? Quase tudo o que idealizo é tão menor do que realmente acontece…

Minha parceria com a Adelidia é algo que me enche de satisfação. Ela é tão presente aqui quanto eu. Extremamente paciente e generosa. Sábia. Intuitiva. Valente.

Nossos debates são sempre enriquecedores. E engraçados, também.

Minha filhotinha e meu marido, também fazem parte do blog. Eles acompanharam toda minha angústia do começo. Sempre tão compreensivos comigo…

No início, eu dava muito mais atenção ao blog do que a eles, devo admitir. Agora, acredito que consegui equilibrar um pouco melhor o meu tempo. Acredito, mas não tenho certeza. Mas é certo que eles torcem por mim e vibram com mais esta conquista. Nos amamos, e quem ama ampara, sem reservas.

Eles me amparam. Vocês me amparam. Nós todos nos amparamos.

A emoção me invade mais uma vez. Posso sentir, bem pertinho, aqui, no meu coração, a vibração do amor. Tão raro. Tão simples. Precioso. Sublime. Sem explicação. Tenho medo de falar demais porque muitas vezes as palavras empobrecem. Melhor não falar nada, não. Só sentir.

Afinal, o Universo nos conecta numa teia tênue, lindamente mágica.

Estou muito feliz, e muito agradecida, por isso.