Despeço-me desta fase

Com a maturidade foi ficando mais fácil identificar as fases da minha vida. Os ciclos se sucedem, assim com o as estações do ano. Ao fazer tal constatação, que hoje me parece tão óbvia – embora nem sempre tenha sido assim -, dediquei-me a desenvolver uma capacidade de adaptação que agora me permite conviver quase que pacificamente com estes movimentos.

Digo isso porque neste momento comemoro o final de mais um ciclo. Ainda não sei qual será o próximo. E aprendi, também, a conviver sem muita angústia com esta etapa: a da incerteza. Quando ainda não sabemos o rumo que a vida vai seguir. Ou que rumo daremos a ela. Este compasso de espera. Este tempo que antecede cada passo, como um intervalo entre a inspiração e a expiração. Tempo de observar. Sentir. Principalmente sentir. Decidir sem pressa. Respirar. Um passo por vez. Deixando todas as sensações se manifestarem como quando andamos num terreno meio nebuloso e desconhecido. Despedida e comemoração. Comemoração. Cinco anos. Cinco anos que estive como apresentadora do Casos de Família.

Olho para trás com muito orgulho, porque reconheço uma bonita trajetória. Muitas vezes as pessoas que se apropriam do que é seu são vistas com maus olhos. Tenho o hábito de não omitir créditos a quem os têm de direito. Em contrapartida, não tenho mais pudor em me apropriar do que é meu. Por isso vejo, sem falsa modéstia, e reconheço os méritos do meu trabalho. Consegui transformar um tipo de programa desacreditado e desprestigiado em algo inovador. E de valor. Tanto que hoje é referência.

Quando comecei a trabalhar no Casos, não imaginava onde chegaria. Assim como hoje, não tinha planos. Também não sabia que eu tinha tanto jogo de cintura. O que havia, de minha parte, era algo que sempre pautou a minha vida. Coragem. Muita coragem. E uma imensa vontade de continuar fazendo algo digno diante do Universo, diante desse mistério chamado vida.

Foi, sim, um tremendo desafio.

Tive, sim, muito medo. Mas não o suficiente para desistir.

Nestes anos as dificuldades foram gigantescas. Mais uma vez, não entrarei em detalhes para não correr o risco de falar mais que devo, nem perder a elegância.

Dedicação, seriedade, rigor ético. Todas as minhas convicções postas à prova. A vontade de me superar sempre me acompanhou, em todos os momentos, não me deixando fraquejar. Infinitas noites sem dormir. Intensas e terríveis dores musculares. Tristeza. Muita tristeza.

Enfim, foram cinco anos apresentado um programa diário. Cinco anos praticamente sem férias, nem reprise. O Casos de Família ficou apenas um mês fora do ar, em férias. Em janeiro de 2005. Nos demais meses, de segunda à sexta, feriado, dia santo e etc, todas as tardes, era só ligar a televisão para me ver lá. Trabalhando. Trabalhando com muito carinho, com muito amor. Mais de 1200 programas. Um cenário, que sofreu apenas uma pequena reforma ao longo desse tempo todo.

Sou muito grata à vida pelas oportunidades e pelas experiências maravilhosas que vivi neste período. Por tudo que aprendi. Inclusive sobre mim mesma. Mas decidi parar. Deixar o programa. Preciso descansar um pouco. Estudar e ler muito. Ter idéias.

Seria muito mais fácil desfrutar das conquistas e do prestígio. Continuar fazendo a mesma coisa, me acomodar e não admitir que preciso me reciclar. Seria muito mais fácil me entregar à crença de que “sou perfeita, meu público me ama e está tudo garantido”. As pessoas gostam de mim enquanto faço algo digno de admiração. Amo meus fãs e sou amada por eles porque nos admiramos mutuamente, como em toda relação sadia.

Não sou adepta das coisas mais fáceis. Nunca fui. Some-se a isso, o prazer que dá poder sentir, uma vez mais, o sabor de não ter medo da vida. Fazer parte dela, apenas. Com liberdade. Responsabilidade, audácia. E coragem. Aceitando o caminho. Lançando-me à aventura que é viver.

Agradeço a generosidade das pessoas que entrevistei e da platéia. Agradeço às pessoas que trabalharam comigo; tenho admiração por muitas delas. O carinho dos que me acompanham. O público que me acolheu desde o começo. Agradeço aos que não foram levianos, e evitaram criticar antes de conhecer o meu trabalho e avaliar meu desempenho. Agradeço também aos meus colegas da imprensa que me dispensaram um tratamento respeitoso. O saldo é positivo. Tranquila, e feliz pela sensação do dever cumprido, despeço-me desta fase.

Pretendo continuar mais presente do que nunca aqui no blog. Não tenho planos. Corpo forte. Mente serena. Emoções equilibradas. Seguir em frente. Sempre seguir em frente. Porque, afinal, a vida insiste em pulsar mais forte.

Regina Volpato

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Esclarecimentos
02.03.2009

1- Tenho recebido algumas mensagens me perguntando o porquê de eu não ter avisado a emissora da minha saída, antes da publicação daquela nota, nos comentários do post “Você pensa que arrasa na balada”, aqui no blog, no dia 20 de janeiro de 2009. Sobre isso, tenho a dizer que ao contrário do que foi divulgado, avisei, sim, a empresa, logo na primeira semana de gravação do ano, mais precisamente no dia 16 de janeiro de 2009. Como escrevi a um profissional de imprensa, numa entrevista via e-mail, no dia 24 de janeiro de 2009:

“A ética pauta não só o meu trabalho. Mas a minha vida. Eu jamais seria capaz de não comunicar à empresa uma decisão como essa. O assunto veio à tona no meu blog porque fiquei sabendo de uma surpresa que o fã-clube faria para mim, na gravação do dia do meu aniversário, 06 de março. Pessoas vindo de lugares muito distantes; comprando passagem, reservando hotel, pedindo férias; meninas que precisam viajar acompanhadas dos responsáveis por serem muito jovens e comprometendo a vida das mães e avós. Eu não poderia saber disso e fingir que não sabia; não fazer nada.”

2- Também saiu na imprensa que eu teria adiantado as gravações do programa para poder passar o carnaval no exterior. Isso não é verdade. No dia 16 de fevereiro de 2009 fui comunicada, por telefone, que, a partir daquela data, não havia mais previsão que o programa fosse gravado por mim. Mesmo assim, me mantive em São Paulo, à disposição da empresa, até o dia 28 de fevereiro de 2009, dia em que venceu o meu contrato. Além disso, eu nunca tive poder para marcar ou desmarcar gravações.

3- O que segue, abaixo, me parece, ainda não foi divulgado:
No dia 20 de fevereiro de 2009, atendi a uma convocação do proprietário da empresa para uma reunião. Foi uma conversa muito amigável, tranquila. Nos despedimos como bons amigos. Silvio Santos sempre me tratou com extrema cordialidade e profissionalismo, reflexo do grande profissional que ele é.

Regina Volpato