O Carnaval tem múltiplas origens. No Brasil, aliou-se à tradição católica e às culturas indígena e africana, dando origem a um rito que expressa as contradições do povo brasileiro.


No Brasil tudo acaba em Carnaval. Afirmações deste tipo – indignadas – sobre o caráter nacional, indicam a percepção de uma atitude francamente inconseqüente, por parte dos brasileiros, em relação aos rumos que tomam as ações dos indivíduos, grupos e instituições. Em relação às recentes denúncias de corrupção no governo federal, ouve-se freqüentemente que tudo acabará em “Carnaval”, em “festa”, em “pizza”.

As expressões significam que ninguém será responsabilizado ou punido, como costuma acontecer no Brasil.

Em casos assim, a associação do caráter brasileiro à festividade aponta para a percepção de certa alienação, certa displicência e tendência ao descaso com a lei e a ordem, imediatamente associadas ao Carnaval, festa em que as regras podem ser quebradas, considerada pelos antropólogos um rito de inversão, momento em que valores e hierarquias são temporariamente invertidos ou apagados para ressaltar os valores sociais permanentes. Isso indica que um mundo às avessas nos é familiar ou, pelo menos, aceito sem muito problema.

Também no exterior, somos considerados o “país do Carnaval” (e o dicionário registra que a palavra “carnaval” pode significar “confusão, desordem, trapalhada”). Da inconseqüência e alegre irresponsabilidade. “O Brasil”, teria afirmado o presidente da França Charles De Gaulle, “não é um país sério.” No entanto, se a festa é tão importante na vida brasileira e, ao mesmo tempo, vista como tão deletéria, é preciso compreender seu sentido e por que o carnaval se tornou um símbolo nacional e um atributo de nossa identidade cultural.
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Página fonte: Revista Mente e Cérebro

Rita Amaral
é antropóloga do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, doutora em antropologia social, Ph.D em etnologia afro-brasileira pela USP e autora de Festa à brasileira: sentidos do festejar no país que “não é sério” (eBooksBrasil, 1998), disponível gratuitamente em www.aguaforte.com/antropologia/festaabrasileira/festa.html