A escola pode ser uma tortura para crianças que são vítimas de bullying – a intimidação física e psicológica feita por alunos briguentos. O fenômeno, que também envolve a disseminação de apelidos, boatos e fofocas, é mais comum que se supõe.


por Mechthild Schafer


Os meninos atacam Basini quase toda noite, arrancando-o da cama e empurrando-o escada acima para o sótão. Nenhum professor vai ouvir seus gritos de lá. Eles o forçam a se despir, então fustigam suas costas. Nu e indefeso, o garoto se encolhe enquanto seus torturadores o fazem gritar “Eu sou uma besta!”. Durante o dia, outros estudantes o cercam no pátio e o empurram até ele cair, sangrando e sujo.

O jovem Törless, de Robert Musil, romance sobre os anos da puberdade passados num colégio interno da Áustria na virada do século, foi publicado em 1906. Os impulsos que fervem por trás dos muros da Academia Militar Imperial e Real podem soar como relíquias embaraçosas de uma era passada, mas não são. Violência de um grupo contra um indivíduo, acobertada pelos colegas e mantida a distância pelos professores, ainda acontece nas escolas hoje. E o bullying – termo em inglês para intimidação física e psicológica -, assim como a disseminação regular de apelidos depreciativos, boatos e fofocas, são mais comuns que a sociedade, os funcionários de escolas e os pais gostariam de acreditar.

Nos Estados Unidos, infelizmente, foi preciso ocorrer um episódio de violência chocante para chamar mais atenção ao problema. O tiroteio na escola secundária Columbine, no Colorado, foi uma tentativa trágica de revide de dois meninos que vinham sendo intimidados por dois atletas populares da escola. O bullying foi um dos fatores que levaram Jeffrey Weise para uma vida de isolamento antes de partir para o tiroteiro desordenado de retaliação na Red Lake High School em Minnesota, matando nove pessoas e a si próprio. E todos os anos adolescentes cometem suicídio, deixando para trás bilhetes como o de uma menina canadense de 14 anos: “Se eu tentar buscar ajuda, será pior… Mesmo se eu delatasse, nada os deteria”. As escolas devem tomar medidas mais agressivas para parar o tormento, e a mais importante é entender melhor o que motiva os autores de bullying.
Continua

Página fonte: Revista Mente e Cérebro

Mechthild Schafer é livre-docente em psicologia educacional da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, Alemanha.